15.12.09

Poema de Natal



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes in Antologia poética

4 Posfácios:

Blogger J M Ferreira escreveu...

Como sempre, profundo e enigmático.
Até parece que leu o meu «recado»
Continue...

JM Ferreira

17/12/09 23:40  
Blogger Saraï escreveu...

De facto... vi o seu recado...
E na leva do "Natal" achei por bem um poema de natal mais enigmático, na onda das nossas vivências actuais do verdadeiro Natal.
Conversa que dá pano para mangas... fica para ser feita ao vivo :)
S.

18/12/09 16:00  
Blogger éme escreveu...

Foi um prazer voltar a rever algumas destas coisas. Devias ser mais assídua neste teu cantinho, Sarita...
Abraço, com saudades. *

6/4/10 23:57  
Blogger Saraï escreveu...

Oh ! Maria...
Assídua até sou não tenho é grandes coisas para aqui partilhar... :(
Vou passando pelos outros e vou encontrando coisas belas escrita pelos seus cantinhos, e reduzo-me ao meu vazio.
Tenho muitas saudades tuas também meu adorável gatinho :)
Beijos grandes

9/4/10 02:12  

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