5.12.15

O vencedor

(http://www.iamag.co/features/47-ronin-the-way-of-the-warrior/)

Existem cinco factores que permitem que se preveja qual dos oponentes sairá vencedor:
Aquele que sabe quando deve ou não lutar;
Aquele que sabe como adoptar a arte militar apropriada de acordo com a superioridade ou inferioridade de suas forças frente ao inimigo;
Aquele que sabe como manter seus superiores e subordinados unidos de acordo com suas propostas;
Aquele que está bem preparado e enfrenta um inimigo desprevenido;
Aquele que é um general sábio e capaz, em cujas decisões o soberano não interfere.

Sun Tzu in A Arte da Guerra

10.11.14

... um justo apenas


(http://gilsonsantosdotcom.files.wordpress.com/2013/06/abraham-angels-b-e-murillo_thumb.jpg?w=504&h=454)

Abraão aproximou-se e disse: «E será que vais exterminar, ao mesmo tempo, o justo com o culpado? Talvez haja cinquenta justos na cidade; matá-los-ás a todos? Não perdoarás à cidade, por causa dos cinquenta justos que nela podem existir? Longe de ti proceder assim e matar o justo com o culpado, tratando-os da mesma maneira! Longe de ti! O juiz de toda a Terra não fará justiça?»
O SENHOR disse: «Se encontrar em Sodoma cinquenta justos perdoarei a toda a cidade, por causa deles.» 
Abraão prosseguiu: «Pois que me atrevi a falar ao meu Senhor, eu que sou apenas cinza e pó, continuarei. Se, por acaso, para cinquenta justos faltarem cinco, destruirás toda a cidade, por causa desses cinco homens?» 
O SENHOR respondeu: «Não a destruirei, se lá encontrar quarenta e cinco justos.»
Abraão insistiu ainda e disse: «Talvez não se encontrem nela mais de quarenta.» 
O SENHOR disse: «Não destruirei a cidade, em atenção a esses quarenta.» 
Abraão voltou a dizer: «Que o Senhor não se irrite, por eu continuar a insistir. Talvez lá se encontrem trinta justos.» 
O SENHOR respondeu: «Se lá encontrar trinta justos, não o farei.» 
Abraão prosseguiu: «Perdoa, meu Senhor, a ousadia que tenho de te falar. Talvez não se encontrem lá mais de vinte justos.» 
O SENHOR disse: «Em atenção a esses vinte justos, não a destruirei.» 
Abraão insistiu novamente: «Que o meu Senhor não se irrite; não falarei, porém, mais do que esta vez. Talvez lá não se encontrem senão dez.» 
E Deus respondeu: «Em atenção a esses dez justos, não a destruirei

Gn 18, 23-32

22.3.14

O Infante



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa in Mensagem

27.6.10

elementares formas

(http://www.mondomarefestival.it/contentmanager_data/images/F21052008121317.jpg)

Há no ser humano, como animal que é, um instinto incontrolável que o impede de assumir o inevitável e o leva a desencadear uma luta desesperada e inútil contra a morte, a qual só prolonga a agonia. Esse impulso da espécie faz-nos esquecer as mais elementares formas de bem morrer.
Miguelanxo Prado in De Profundis

20.6.10

... Não, não é.

A vida não é fácil.
Como se pode esperar que nos comportemos adequadamente, escolhamos as decisões correctas e demos as respostas certas, se nunca há tempo para ensaios e os dias se vão empurrando uns aos outros numa sucessão vertiginosa, sem um momento sequer para descanso da companhia?
Ainda por cima não nos é dado a ler o guião, ninguém sabe o que lhe está reservado, se ser coroado imperador ou nunca passar de segundo oficial de secretaria.
Chegar a nonagenário ou morrer numa queda de bicicleta logo a meio do primeiro acto.
Herdar uma fortuna de um parente desconhecido ameio do segundo acto ou ter de trabalhar arduamente até ao cair do pano.
Há quem não perceba sequer quando termina o seu papel e insista em ficar em cena muito depois de já não ter nada para dizer, esbarrando no cenário e atrapalhando os outros actores.
Que passos dar, se não há marcas no palco?
Onde devemos meter as mãos enquanto não chega a nossa deixa? Devemos cruzar os braços, assobiar para o lado ou fuma um cigarro?
E como ter a certeza de que chegou a nossa deixa?
Habitualmente não há respostas para estas perguntas e resta-nos improvisar: fingimos saber o que queremos e lá vamos, evitando tropeçar nos adereços e tentando aviar as réplicas num tom que pretendemos convincente, mas que resulta quase sempre presumido.
A vida não é fácil [...]
José Carlos Fernandes e Luís Henriques in A Metrópole Feérica (Terra Incógnita, volI)

15.12.09

Poema de Natal



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
Vinicius de Moraes in Antologia poética

25.8.09

O presente que já passou


[...]
As informações que o nosso cérebro capta através dos cinco sentidos circulam a 300km/hora.
É a velocidade de condução das fibras sensoriais, a dos impulsos propagados no nosso corpo.
Li isto numa revista sobre saúde, quando esperava por Manfred num bar, em frente às pequenas instalações do C.I.C.V.
300 quilómetros/hora, parece rápido, mas...
Fiz os cálculos:
Se tivermos em conta que os nossos olhos estão a uma dezena de centímetros do cérebro, isso representa 0,0012 segundos. 12 dez mil avos de segundo. É muito pouco, mas significa que tudo o que percebemos pertence já ao passado (sem contar com o percurso da luz entre o objecto e a nossa vista). Tudo o que julgamos viver no presente já passou, 0,0100 ou 0,0150 segundos para uma sensação táctil. Será que é ali que Ela mora? Ali, no instante presente?
[...]
Cosey in Ela ou Dez Mil Pirilampos