8.2.06

A Noite e o Louco

- Sou como tu, ó noite; escuro e despido, ando por atalhos em chamas, situados acima dos meus sonhos e ao contacto com os meus pés da terra brotam azinheiras.
- Não, não és como eu, ó Louco, porque ainda olhas para trás a medir na areia o rasto dos teus passos.
- Sou como tu, ó noite, silencioso e profundo, e no coração da minha aldeia há uma deusa que vai dando à luz um filho com que o céu há-de tocar o inferno.
- Não, não és como eu, ó louco, porque estremeces diante da dor e te causam temor as canções do abismo.
- Sou como tu, ó noite, terrível e selvagem; porque os meus ouvidos percebem clamores de nações conquistadas e suspiros de reinos esquecidos.
- Não, não és como eu, ó louco, porque continuas amigo do teu pequeno Ego e não podes ser amigo do teu Ego monstruoso.
- Sou como tu, ó noite, cruel e terrível; porque meu peito está iluminado por navios que ardem no mar e os meus lábios estão húmidos do sangue de guerreiros degolados.
- Não és como eu, ó louco, porque ainda suspiras por encontrar a tua alma gémea e não foste capaz de converter-te na tua própria Lei.
- Sou como tu, ó noite, feliz e alegre; porque aquele que habita na minha sombra está ébrio de vinho virgem e quem me segue está a pecar com alegria.
- Não, não és como eu, ó Louco, porque a tua alma está envolta num véu de sete horas e não levas o coração na mão.
- Sou como tu, ó noite, paciente e apaixonado; porque no meu peito estão enterrados mil amantes em mortalhas de beijos murchos.
- É verdade, ó louco, que és como eu? Pareceste-te comigo? Podes cavalgar numa tempestade como um cavalo selvagem e agarrar o relâmpago como se fosse uma espada?
- Sim, sou como tu, ó noite, como tu sou poderoso e alto e o meu trono assenta sobre montanhas de deuses caídos; diante de mim desfilam os dias para beijar a orla do meu vestido, sem se atreverem a fitar-me o rosto.
- És como eu, filho do meu mais obscuro coração? É certo que nas tuas têmporas vibram os mais indómitos pensamentos e que podes usar a minha vasta linguagem?
- Sim, somos irmãos gémeos, ó noite, porque tu revelas o espaço e eu a minha alma.
Khalil Gibran in O Louco